Meu fascínio com a impressão me acompanha desde criança, quando gastava mais tempo lendo as letrinhas miúdas do final dos gibis do que lendo os balõezinhos, ou roubava a lente de aumento da minha mãe para ficar olhando aqueles pontinhos coloridos minúsculos que formavam os desenhos. Entre meus brinquedos favoritos de infância, além de Lego e Playmobil também estavam minha máquina de escrever mecânica, a modernérrima Olivetti elétrica do meu avô, um mimeógrafo que a minha mãe comprou, e máquinas de xerox em geral. Na adolescência, comecei a fazer fanzines misturando desenhos e textos feitos no computador, e a fazer camisetas usando serigrafia e stencil.
Quando cheguei na faculdade, tive a oportunidade de experimentar técnicas como serigrafia em papel, litografia de pedra e de chapa, gravura em madeira, e em metal. Minha obsessão com o impresso aflorou nessa época, e depois de me formar em cinema de animação acabei voltando à escola para estudar gravura mais a fundo, chegando a tentar mestrado na área. Feliz ou infelizmente, não consegui, e acabei voltando para a animação, onde me sinto mais útil. Mas a gravura nunca deixou de fazer parte integrante do meu cotidiano.
O raciocínio por trás das técnicas da gravura me levou a fazer vários trabalhos de "gravura digital" - colagens e manipulações digitais de imagens levando em consideração o trabalho em 4 cores e outros aspectos típicos da imagem impressa. Inventei esse apelido para classificar imagens criadas no computador usando matrizes fotográficas. A idéia é a mesma da gravura: pegar uma referência visual (fotografia ou não) e reproduzi-la em camadas de cores. Alguns trabalhos parecem colagens, outros parecem apenas interferências em cima de fotos. Mas todas foram criadas com o mesmo raciocínio: pegar uma foto, separar os quatro canais de cor para impressão - ciano, magenta, amarelo e preto - e trabalhar as quatro camadas separadamente, como se fosse fazer uma litogravura de chapa.
As imagens foram scanneadas de revistas. Algumas eram em preto e branco e foram coloridas artificiamente pela mistura de imagens nos canais coloridos. A primeira da lista, por exemplo, era apenas uma foto de uma lâmpada branca no fundo preto. Copiando e colando a mesma foto nos quatro canais de cor, e modificando a posição das imagens, consegui criar várias cores diferentes, em uma composição abstrata bem mais interessante do que a foto original.
Gosto muito de trabalhar com a manipulação de imagens fotográficas, é algo que se aproxima muito do surrealismo. Quanto mais fotorrealista é a imagem, maior é o impacto do estranhamento que ela pode provocar.
Não gosto muito de ficar discutindo se gravura digital é melhor ou pior do que analógica. Cada coisa é uma coisa.
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